SE NÃO SOU EU UMA MULHER

 

Laverne Cox

 

ESSA É UMA PEÇA QUE ESCREVI HÁ UNS DOIS ANOS LOCALIZANDO MINHA IDENTIDADE TRANS EM RELAÇÃO À MINHA MULHERIDADE NEGRA. ALGUÉM NA SALA DE CHAT DO VH1 QUERIA OUVIR MEUS PENSAMENTOS SOBRE SER UMA MULHER DE COR TRANS. AQUI ESTÃO ALGUNS DELES.

 

SE NÃO SOU EU UMA MULHER[2]

“Se não sou eu uma mulher.” Essa é uma frase que tem pipocado muito na minha cabeça ultimamente. É uma frase que todas nós conhecemos, obviamente, do famoso discurso de Sojourner Truth de mesmo título. É uma frase que evoca para mim a desvalorização histórica da mulheridade negra na América [Estados Unidos da América][3]. A Sra. Truth em 1851 na Convenção de Mulheres em Akron, Ohio, diz:

“Aquele homem ali diz que mulheres têm que ser ajudadas para subir nas carruagens, e levantadas sob as valetas, e ter o melhor lugar onde seja. Ninguém nunca me ajuda a subir em carruagens, ou sobre lamaçais, ou me dá lugar melhor nenhum! E eu não sou uma mulher?”

Ela continua:

“Eu dei à luz treze crianças, e vi quase todas serem vendidas para escravização, e quando eu chorei meu pesar de mãe, ninguém além de Jesus me ouviu! E eu não sou uma mulher?”

É uma frase que uma de minhas escritoras favoritas, bell hooks, se apropria para o título de seu primeiro livro, “Ain’t I a woman: Black Women and Feminism” [Se não sou eu uma mulher: Mulheres Negras e Feminismo]. Nesse livro, ela falou sobre como mulheres negras foram barradas da primeira onda do movimento feminista. Ela localizou essa expulsão novamente dentro de uma história de desvalorização da mulheridade negra dentro de um contexto cultural racista branco.

Não sou eu uma mulher? Não sou eu uma mulher? Essa frase tem quase me assombrado ultimamente. Certamente como uma mulher transgênero essa é a questão, não é mesmo[?] Sou eu uma mulher? Mas não sou eu uma mulher? Num mundo binário de gênero, mulheres trans não podem ser mulheres. Mas uma das lições importantes do feminismo é que essa categoria de mulher não é um imperativo biológico. A teórica feminista e queer Judith Butler abre seu famoso livro Genter Trouble [Problemas de Gênero] com a bem conhecida citação de Simone de Beauvoir: “Não se nasce uma mulher mas sim se torna uma”. Butler acrescenta que dentro dessa análise de de Beauvoir, quem se torna uma mulher não é necessariamente fêmea. Ela adiciona, “segue-se que mulher em si é um termo em processo, um devir, um construir que não pode exatamente ser dito como originando ou acabando”.

Se não sou eu uma mulher.

Eu localizo esse momento de Butler não para ser pretenciosa ou acadêmica. Mas eu sinto esse processo de devir em minha vida. Eu sempre senti no meu coração que sou uma garota e agora uma mulher. Por anos meus sentimentos eram mais de identificação que de experiência. Eu me lembro de estar numa aula de estudos das mulheres na faculdade me sentindo tão conectada com as questões que estavam sendo discutidas. Eu era muito andrógena naquele tempo. Muitas das outras mulheres na turma me percebiam como um homem gay muito, muito afeminado. Por mais que eu me identificasse como uma mulher, naquele momento as outras mulheres da turma me só viam como um homem com o potencial de oprimir. Eu me recordo de chamar uma das mulheres da turma de querida e todo mundo ficar me marcando por isso.

Vivendo há 10 anos como mulher no mundo, eu sinto como se a mulheridade que eu sempre senti por dentro finalmente tenha se externalizado. Ainda assim, muitas pessoas vão desaprovar essa mulheridade por causa do meu status de transgênero. Obviamente eu sei que posso ocupar espaços múltiplos. Posso ser trans e uma mulher, mas sou também uma mulher negra. Há uma dor que essa história engendra que é muito real nas vidas de mulheres negras aqui e agora n[os Estados Unidos d]a América. É uma dor que é similar aos sentimentos que compeliram Sojourner Truth a perguntar “E eu não sou uma mulher?” mais de 150 anos atrás. É algo que mulheres negras n[os Estados Unidos d]a América sabemos se olhamos ao redor a imagens e mentalidades que nos desvalorizam. Mas nós sabemos isso mais porque nós sentimos em olhares e desvios de olhar e nos tons das vozes das pessoas, em revistas de moda e outras representações midiáticas.

Não posso deixar de recordar um momento que vi no programa de Tyra Banks. Ela fez um programa sobre como percepções raciais afetam a atração. Teve um momento em que ela pediu a todos os homens no palco que ficassem perto do tipo de mulher com quem eles sexualmente fantasiavam. Havia mulheres de múltiplas raças no palco. Nenhum ficou do lado da mulher negra. Então ela pediu que se aproximassem da mulher com quem se casariam e apresentariam à família. Só outro homem negro escolheu a mulher negra no palco nesse caso. Apesar de ter conhecido muitos homens que têm fantasias sexuais comigo, teve alguma coisa nesse momento que me pareceu real com a qual me identifiquei. Eu fiquei algo chocada por ninguém ter escolhido a mulher negra em um nível, mas em outro eu não fiquei nada chocada. Mesmo que eu tenha sido objetificada sexualmente por homens, eu tenho sido simultaneamente desvalorizada por eles. Nós sabemos que essas duas coisas podem coexistir.

Mas a objetificação racial toma uma dimensão realmente interessante no corpo de uma mulher trans, particularmente no caso de uma mulher trans negra. Na América[4] é conhecimento comum que historicamente na imaginação de supremacia branca tem havido uma fascinação com o pênis do homem negro. O fato de que os pênis de homens negros eram frequentemente cortados e vendidos depois que eles eram linchados é um testemunho disso.

Essa história está viva e inabalável, hoje em novas formas. O pênis do homem negro ganhou proporções míticas na América. Ele continua sendo um objeto de medo e fascinação. Mas o que acontece nesse contexto cultural quando uma mulher negra está em posse daquele pênis mítico? Ele ainda tem as mesmas dimensões míticas uma vez que é “feminizado”? Eu recordo de estar numa festa para mulheres trans e os homens que nos desejam. Tinha um cara considerado atraente por mim a quem vi conversando com um monte de garotas asiáticas a noite toda. Eu sorri pra ele algumas vezes e nada. Mais tarde, uma daquelas garotas que eu conhecia nos apresentou. Eu, brincando, disse: “Oi, você é uma graça, mas obviamente[5] não me acha atraente.” Ele disse: “Não, eu acho você muito atraente, mas você é intimidante.” Eu fiquei fascinada. Ninguém tinha me dito que eu era intimidadora antes. Então eu quis saber o que em mim ele achava intimidante. Ele disse “Bem, você tem um corpo perfeito, é estonteante e provavelmente é maior que eu”.

Eu fiquei chocada e Rupauleada[6] (como as monas diriam) por ele ter ousado ir aí, por ele fazer essas assunções sobre meu corpo. Ele era branco. Eu ainda acho isso impressionante. Eu menciono essa história para explicitar as realidades complexas do corpo negro transexual e sua identidade historicamente, e como essa história informa como somos vistxs e experienciadxs hoje. Será que ele acharia uma mulher negra não-trans tão intimidante?, suas concepções racistas sobre o pênis do homem negro estavam nitidamente deslocadas em relação a mim. Esse racismo estava também nitidamente baseado nas próprias inseguranças dele sobre si mesmo, como a maioria do preconceito, que nasce de insegurança pessoal.

Me achar bonita numa cultura em que padrões de beleza feminina brancos ainda são a norma: eu continuo achando isso desafiador. Me dizem que sou bonita há anos e eu ainda não acreditei realmente em meu coração que eu sou. Eu tenho dúvidas sobre meus traços serem “femininos o bastante” para alcançar os padrões do meu próprio olhar crítico, duro, bem como os padrões das percepções de outrxs. O resultado  de anos andando nas ruas e não passando sendo igual a não ser percebida como uma mulher não-trans, por exemplo, significaram para mim, em minha ment,e que eu não sou “bonita o bastante.” Conforme eu fui evoluindo e crescendo, eu percebi que passar e beleza não têm nada a ver uma com o outro.  Mas nas muitas vezes que tenho contemplado a cirurgia de feminização facial (CFF) [FFS, facial feminization surgery], fico entristecida em confessar, mas parte de meus desejos de parecer mais “bonita”, mais feminina, eram para parecer mais branca. Eu estou começando a chorar enquanto escrevo isso. É duro admitir mesmo para mim mesma esse grau intenso de autoódio centrado em minha raça. E eu felizmente não tenho como pagar uma CFF. Estou num momento, agora, em que me sinto bonita enquanto mulher negra. É algo pelo qual continuo lutando.

Mas o tipo de desvalorização da mulheridade negra que me faria não abraçar minha própria beleza é o legado que fez com que o corpo negro feminino fosse o lugar de tanta exploração. Essa história, misturada à história do explorador que criou o mito do pênis do homem negro, são as histórias marcadas e transgredidas pela realidade do meu corpo. Mesmo com essa transformação complexa, eu ainda afirmo, se não sou eu uma mulher.

No contexto de um discurso feminista materialista, nós sabemos que corpos importam. Mas também sabemos que nossos corpos não são nosso destino. Nós somos mais que nossos corpos. É esse conceito muito espiritual que levou minhas/meus ancestrais escravizadxs a ultrapassar  o horror daquela experiência, sabendo que somos mais que nossos corpos, achando um espaço para transcender esse plano material em que vivemos. Mas como uma postura libertadora é importante para pessoas negras retomarmos nossos corpos, historicamente vendidos, estuprados, linchados, geralmente desvalorizados como não belos e até selvagens. Mas ao retomarmos nossos corpos é importante não comprar a mitologia racializada sobre eles. Meu corpo transexual muitas vezes visado unicamente como um espaço de conquista sexual e objetificação é um lugar potencialmente interessante para a subversão daquela história racista. Muitas das questões que assolam a cultura afro-americana hoje estão enraizadas no que avalio como uma relação acrítica tanto de homens quanto de mulheres negrxs com o patriarcado ou sexismo institucionalizado. Esse sistema é inerentemente heterossexista, homofóbico e, obviamente, transfóbico.

Penso que abraçar a mulher negra transexual como uma mulher da cultura negra é um importante primeiro passo para desmantelar no pensamento negro a proeminência do patriarcado, que tem basicamente oprimido todxs nós. A tentativa de homens negros de viverem um conceito racista de masculinidade bandida está literalmente matando eles. É de fato minha crença que o abraçar as identidades transgêneras como um todo nesse país e finalmente desmantelar o sistema binário de gênero beneficia todxs nós. A dra. Jamie Koufman, a conhecida cirurgiã de laringe, disse algo durante um debate da revista “The Advocate” de que eu recentemente participei, e que eu achei tão profundo. Ela disse: “Todxs nós somos transgêneros. Nenhum/a de nós se encaixa no modelo binário de gênero”. A revolução de gênero que frequentemente imagino e falo sobre é realmente sobre nos libertarmos da opressão de expectativas baseadas nesse modelo de gênero em que nenhum/a de nós realmente se encaixa mesmo.

Não sou eu uma mulher? América negra, meus/minhas irmãos e irmãs. Eu amo e aceito vocês. Vocês me amam e me aceitam como a mulher negra que sou? Minha identidade trans não me torna nem um pouco menos negra. Reconhecer a mim e à minha identidade complexa é uma oportunidade para nós nos reconectarmos àquele sonho de libertação que não exclude, mas que é sobre todas as pessoas oprimidas se juntando para ter uma voz unida, unida em amor e na possibilidade de resgate. Se não sou eu uma mulher.


[1] traduzido por tatiana nascimento em agosto de 2009, de “AIN’T I A WOMAN”, artigo publicado no site de laverne cox: <http://lavernecox.com/gender-studies/aint-i-woman>.

[3] por entender que América é um continente com vários países, a despeito de Cox, muitas outras ativistas/teóricas que leio, e muita gente vivendo naquele país se referirem a América como um país (o delxs), enfatizo com a referência ao nome inteiro do país, Estados Unidos da América. não uso Estados Unidos porque poderia deixar a referência ambígua, uma vez, no continente, também o México tem, por nome oficial, Estados Unidos – Estados Unidos Mexicanos. n. da t.

[4] não marquei aqui América como anteriormente para tentar explicitar que há uma dimensão continental, e afro-diaspórica transatlântica em realidade, dessa estereotipia. n. da t.

[5] no texto em inglês, Cox usou “clearly” – tenho preferido evitar usar termos como “claro” e “esclarecer” indo no fluxo de demandas de movimentos negros no brasil para quem algumas expressões, como essas, carregam lastros racistas, uma vez que insistem na dicotomia entre racionalidade(humana)-clareza-branquitude e irracionalidade(negra)-obscuridade-negritude. n. da t.

[6] referência a Ru Paul. n. da t.

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traduzi esse poema porque é sobre buceta-com-buceta, porque é apaixonante, porque conversa diretamente com Poesia não é um luxo, de Audre Lorde, não só nas ressonâncias como na proposta de pensar poesia como um espaço de teorização próprio de lésbicas de cor terceiro-mundistas.

Intimidade não é luxo, de Cheryl Clarke

Intimidade não é luxo aqui.
Não mais telefones pendurados
ou linhas sempre ocupadas
ou conversas ainda censuradas.
Não mais mirar nossas mãos
temendo dá-las
ou se dadas
temendo soltar.
Nós estamos aqui.
Após anos de separação,
mulheres tomam seu tempo
dispensam velhas animosidades.
Tribadismo é uma panaceia ancestral e vale o risco
uma panaceia ancestral e vale o risco.

tribadismo, ou: “esfregar buceta-com-buceta”

CLARKE, Cheryl. Intimacy no luxury. In: ______. The days of good looks: the prose and poetry of Cheryl Clarke, 1980 to 2005. New York: Da Capo Press, 2006. p. 101.

Poesia não é um luxo[1]

Audre Lorde

A qualidade da luz pela qual escrutinamos nossas vidas tem impacto direto sobre o produto que vivemos, e sobre as mudanças que esperamos trazer por essas vidas. É dentro dessa luz que nós formamos aquelas ideias pelas quais alcançamos nossa mágica e a fazemos realizada. Isso é poesia como iluminação, pois é pela poesia que nós damos nome àquelas ideias que estão – até o poema – inominadas e desformes, ainda por nascer, mas já sentidas. Essa destilação da experiência da qual brota poesia verdadeira pare pensamento como sonho pare conceito, como sentimento pare ideia, e conhecimento pare (precede) entendimento.

Conforme nós aprendemos a sustentar a intimidade do escrutínio e florescer dentro dela, conforme aprendemos a usar os produtos daquele escrutínio para poder dentro de nossa vida, aqueles medos que comandam nossas vidas e formam nossos silêncios começam a perder o controle sobre nós.

Para cada de nós como mulheres, há um lugar escuro por dentro, onde escondido e crescendo nosso espírito verdadeiro se ergue, “lindo / e firme como uma castanha / opondo-se colunar ao (v)nosso pesadelo de fraqueza”[2] e impotência.

Esses lugares de possibilidade dentro de nós são escuros porque são ancestrais e escondidos; eles sobreviveram e cresceram fortes através daquela escuridão. Dentro desses lugares profundos, cada uma de nós mantém uma reserva incrível de criatividade e poder, de emoção e sentimento não examinado e não registrado. O lugar de poder de mulher dentro de cada uma de nós não é branco nem superfície; é escuro, é ancestral, e é profundo.

Quando vemos a vida no modelo europeu unicamente como um problema a ser solucionado, nós contamos somente com nossas ideias para nos deixar livres, pois isso foi o que os patriarcas brancos nos disseram que era precioso.

Mas quanto mais vamos entrando em contato com nossa consciência de vida ancestral, não europeia, como uma situação a ser experienciada e com a qual interagir, nós aprendemos mais e mais a cultivar nossos sentimentos, e a respeitar aquelas fontes secretas de nosso poder de onde vem conhecimento verdadeiro e, portanto, ações duradouras vêm.

Nesse ponto no tempo, acredito que as mulheres carregamos dentro de nós mesmas a possibilidade de fusão dessas duas abordagens tão necessárias à sobrevivência, e chegamos perto dessa combinação em nossa poesia. Eu falo aqui de poesia como uma destilação revelatória da experiência, não o jogo de palavras estéril que, muitas vezes, os patriarcas brancos distorceram a palavra poesia para significar – para cobrir um desejo desesperado por imaginação sem vislumbre.

Para mulheres, então, poesia não é um luxo. Ela é uma necessidade vital de nossa existência. Ela forma a qualidade da luz dentro da qual predizemos nossas esperanças e sonhos em direção a sobrevivência e mudança, primeiro feita em linguagem, depois em ideia, então em ação mais tocável. Poesia é a maneira com que ajudamos a dar nome ao inominado, para que possa ser pensado. O horizonte mais distante de nossas esperanças e medos é calçado por nossos poemas, talhado das experiências pétreas de nossas vidas diárias.

Conforme eles se tornam conhecidos e aceitos por nós, nossos sentimentos e a exploração honesta deles se tornam santuários e solo polinizado para o mais radical e audaz de ideias. Eles se tornam um abrigo para aquela diferença tão necessária à mudança e a conceituação de qualquer ação significativa. Agora mesmo, eu poderia nomear pelo menos dez ideias que eu teria achado intoleráveis ou incompreensíveis e assustadoras, exceto se tivessem vindo depois de sonhos e poemas. Isso não é fantasia tola, mas uma atenção disciplinada ao verdadeiro significado de “isso parece certo para mim.” Nós podemos nos treinar a respeitar nossos sentimentos e transpô-los em uma linguagem para que possam ser compartilhados. E onde aquela linguagem ainda não existe, é nossa poesia que ajuda a tecê-la. Poesia não é só sonho e visão; ela é a estrutura óssea de nossas vidas. Ela lança as fundações para um futuro de mudança, uma ponte entre nossos medos do que nunca aconteceu antes.

Possibilidade não é para sempre nem instante. Não é fácil sustentar crença em sua eficácia. Às vezes podemos trabalhar muito e duro para estabelecer uma primeira trincheira de resistência real às mortes que esperam que vivamos, só para ter essa trincheira roubada ou ameaçada por aquelas calúnias que fomos socializadas a temer, ou pela retirada daquelas aprovações que fomos alertadas a buscar por segurança. Mulheres nos vemos diminuídas ou abrandadas pelas falsamente benignas acusações de infantilidade, de não-universalidade, de mutabilidade, de sensualidade. E quem pergunta a questão: eu estou alterando sua aura, suas ideias, seus sonhos, ou eu estou meramente movendo você a atos temporários e reativos? E mesmo que a segunda não seja má tarefa, é uma que deve ser vista no contexto de uma necessidade de verdadeira alteração das fundações mesmas de nossas vidas.

Os patriarcas brancos nos disseram: penso, logo existo. A mãe Negra dentro de nós – a poeta – sussurra em nossos sonhos: eu sinto, portanto eu posso ser livre. Poesia cunha a linguagem para expressar e empenhar essa demanda revolucionária, a implementação daquela liberdade.

Contudo, a experiência nos ensinou que ação no agora é também necessária, sempre. Nossas crianças não podem sonhar a não ser que elas vivam, elas não podem viver a não ser que estejam nutridas, e quem mais vai alimentá-las da comida verdadeira sem a qual seus sonhos não serão nada diferentes dos nossos? “Se você quer que nós mudemos o mundo algum dia, nós ao menos tempos que viver tempo o bastante para crescer!”, grita a criança.

Às vezes nos drogamos com sonhos de ideias novas. A cabeça vai nos salvar. O cérebro sozinho vai nos libertar. Mas não há ideias novas ainda esperando nas asas para nos salvar como mulheres, como humanas. Só há aquelas velhas e esquecidas, novas combinações, extrapolações e reconhecimentos desde dentro nós mesmas – junto à renovada coragem para tenta-las. E nós temos que encorajar constantemente a nós mesmas e a cada outra para tentarmos as ações heréticas que nossos sonhos implicam, e que tantas das nossas velhas ideias desprezam. Na linha de frente de nossa movimentação até mudança, só há poesia para aludir à possibilidade feita real. Nossos poemas formulam as implicações de nós mesmas, o que sentimos dentro e ousamos fazer realidade (ou trazer ação de acordo com), nossos medos, nossas esperanças, nossos terrores mais cultivados.

Pois dentro de estruturas vivas definidas pelo lucro, pelo poder linear, pela desumanização institucional, nossos sentimentos não foram feitos para sobreviver. Mantidos por perto como adjuntos inevitáveis ou passatempos prazenteiros, era esperado que sentimentos se curvassem a pensamento como era esperado que mulheres se curvassem a homens. Mas as mulheres temos sobrevivido. Como poetas. E não há sofrimentos novos. Nós já os sentimos todos. Nós escondemos tal fato no mesmo lugar em que nós escondemos nosso poder. Eles emergem em nossos sonhos, e são nossos sonhos que apontam o caminho para liberdade. Aqueles sonhos se tornam realizáveis por nossos poemas que nos dão a força e coragem para ver, sentir, falar, e ousar.

Se o que precisamos para sonhar, para mover nossos espíritos mais profunda e diretamente até o encontro e através de promessa, é menosprezado como luxo, então nós desistimos do cerne – a fonte – de nosso poder, nossa mulheridade; nós desistimos do futuro de nossos mundos.

Pois não há ideias novas. Só há novas maneiras de fazê-las sentidas – de examinar como nos parecem aquelas ideias sendo vividas no domingo de manhã às 7 A.M, depois do café da manhã, durante amor voraz, fazendo guerra, parindo, chorando nossxs mortxs – enquanto nós sofremos as velhas esperas, combatemos os velhos conselhos e medos de sermos silentes e impotentes e sós, enquanto nós provamos nossas possibilidades e forças.


[1] Traduzido por tatiana nascimento, novembro de 2012. dissonante@gmail.com / traduzidas.wordpress.com

[2] Publicado pela primeira vez em Chrysalis: A Magazine of Female Culture, n. 3 (1977). Nota da autora.

pdf aqui

USOS DO ERÓTICO: O ERÓTICO COMO PODER

Audre Lorde[1]

Há muitos tipos de poder, usados e não usados, reconhecidos ou não. O erótico é um recurso dentro de cada uma de nós, que paira num plano profundamente feminino e espiritual, firmemente enraizado no poder de nossos sentimentos impronunciados ou não reconhecidos. Para se perpetuar, toda opressão deve corromper ou distorcer aquelas várias fontes que há na cultura de oprimidxs e podem suprir energia para mudança. Para mulheres, isso tem significado a supressão do erótico como fonte considerável de poder e informação dentro de nossas vidas.

Fomos ensinadas a suspeitar desse recurso, caluniado, insultado e desvalorizado pela sociedade ocidental. De um lado, o superficialmente erótico foi encorajado como símbolo da inferioridade feminina; de outro lado, as mulheres foram levadas a sofrer e se sentirem desprezíveis e suspeitas em virtude de sua existência.

É um pequeno passo daí à falsa crença de que só pela supressão do erótico de nossas vidas e consciências é que podemos ser verdadeiramente fortes. Mas tal força é ilusória, pois vem adornada no contexto dos modelos masculinos de poder.

Como mulheres, temos desconfiado desse poder que emana de nosso conhecimento mais profundo e irracional. Fomos alertadas contra ele por toda nossa vida pelo mundo masculino, que valoriza essa profundidade do sentir a ponto de manter as mulheres por perto para que o exercitemos para servir aos homens, mas que teme tanto essa mesma profundidade para examinar suas possibilidades dentro delas mesmas. Então as mulheres são mantidas numa posição distante/inferior para serem psicologicamente ordenhadas, mais ou menos da mesma forma com que as formigas mantêm colônias de pulgões para fornecer uma substância doadora-de-vida para seus mestres.

Mas o erótico oferece um manancial de força revigorante e provocativa à mulher que não teme sua revelação nem sucumbe à crença de que a sensação é bastante.

O erótico tem sido frequentemente difamado por homens e usado contra mulheres. Tem sido tornado na confusa, na trivial, na psicótica, na plastificada sensação. Por essa razão, temos frequentemente dado as costas à exploração e consideração do erótico como uma fonte de poder e informação, confundindo-o com seu oposto, o pornográfico. Mas pornografia é uma negação direta do poder do erótico, pois ela representa a supressão do verdadeiro sentir. Pornografia enfatiza sensação sem sentimento.

O erótico é uma medida entre os princípios do nosso senso de ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um senso interno de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Pois tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecendo seu poder, em honra e respeito próprio não podemos exigir menos de nós mesmas.

Nunca é fácil demandar o máximo de nós mesmas, de nossas vidas, de nosso trabalho. Encorajar a excelência é ir além da mediocridade encorajada de nossa sociedade, é encorajar a excelência. Mas ceder ao medo de sentir e trabalhar no limite é um luxo que só xs despropositadxs podem bancar, e xs despropositadxs são aquelxs que não desejam guiar seus próprios destinos.

Essa demanda interna por excelência que aprendemos do erótico não pode ser mal entendida como exigir o impossível nem de nós mesmas nem das outras. Tal exigência incapacita todo mundo no processo. Porque o erótico não é uma questão só do que nós fazemos; é uma questão de quão penetrante e inteiramente nós podemos sentir no fazer. Uma vez que sabemos a extensão à qual nós somos capazes de sentir esse senso de satisfação e plenitude, nós podemos então observar qual de nossos afãs de vida nos traz mais perto dessa completude.

O objetivo de cada coisa que fazemos é fazer nossas vidas e a vida de nossas crianças mais ricas e mais possíveis. Na celebração do erótico em todos os nossos envolvimentos, meu trabalho se torna uma decisão consciente – um leito muito esperado em que entro com gratidão e do qual levanto empoderada.

Obviamente, mulheres tão empoderadas são perigosas. Então somos ensinadas a separar a demanda erótica de quase todas as áreas mais vitais de nossas vidas além do sexo. E a falta de consideração às raízes e satisfações eróticas de nosso trabalho é sentida em nosso desafeto por tanto do que fazemos. Por exemplo, quantas vezes amamos de verdade nosso trabalho até em suas maiores dificuldades?

O principal horror de qualquer sistema que define o bom em termos de lucro ao invés de em termos de necessidade humana, ou que define a necessidade humana pela exclusão dos componentes psíquicos e emocionais dela – o principal horror de tal sistema é que rouba de nosso trabalho seu valor erótico, seu poder erótico e interesse e plenitude da vida. Tal sistema reduz trabalho a uma caricatura de necessidades, um dever pelo qual ganhamos pão ou esquecimento de nós mesmas e de quem amamos. Mas isso é o mesmo que cegar uma pintora e dizer a ela que melhore sua obra, e que goste do ato de pintar. Isso não é só perto do impossível, é também profundamente cruel.

Como mulheres, precisamos examinar as formas pelas quais nosso mundo possa ser verdadeiramente diferente. Estou falando aqui da necessidade de reavaliarmos a qualidade de todos os aspectos de nossas vidas e de nosso trabalho, e de como nos movimentamos até e através deles.

A palavra erótico mesma vem da palavra grega eros, a personificação de amor em todos seus aspectos – nascido do Caos, e personificando poder criativo e harmonia. Quando falo do erótico, então, falo dele como uma afirmação da força vital de mulheres; daquela energia criativa empoderada, cujo conhecimento e uso nós estamos agora retomando em nossa linguagem, nossa história, nosso dançar, nosso amar, nosso trabalho, nossas vidas.

Há tentativas frequentes de equiparar pornografia e erotismo, dois usos diametralmente opostos do sexual. Por causa dessas tentativas, se tornou modismo separar o espiritual (psíquico e emocional) do político,vê-loscomo contraditórios ou antitéticos. “Como assim, uma revolucionária poética, uma traficante de armas que medita?”. Da mesma forma temos tentado separar o espiritual e o erótico, assim reduzindo o espiritual a um mundo de afetos insípidos, um mundo do asceta que deseja sentir nada. Mas nada está mais longe da verdade. Pois a posição ascética é uma do mais grandioso medo, da mais grave imobilidade. A severa abstinência do asceta torna-se a obsessão dominadora. E não é uma de autodisciplina mas de autoabnegação.

A dicotomia entre espiritual e político é falsa também, resultante de uma atenção incompleta ao nosso conhecimento erótico. Pois a ponte que os conecta é formada pelo erótico – o sensual–, aquelas expressões físicas, emocionais e psíquicas do que é mais profundo e mais forte e mais rico dentro de cada uma de nós, sendo compartilhado: as paixões de amor, em seus mais fundos significados.

Além do superficial, a considerada frase “me faz sentir bem” reconhece a força do erótico em um conhecimento verdadeiro, pois o que ela significa é a primeira e mais poderosa luz guia a qualquer entendimento. E entendimento é uma ama que só pode esperar, ou explicitar, aquele conhecimento, nascido fundo. O erótico é a nutriz ou a babá de todo nosso conhecimento mais profundo.

O erótico para mim funciona de muitas maneiras, e a primeira é fornecendo o poder que vem de compartilhar profundamente qualquer busca com outra pessoa. A partilha do prazer, seja físico, emocional, psíquico ou intelectual forma entre as compartilhantes uma ponte que pode ser a base para entender muito do que não é compartilhado entre elas, e diminui o medo das suas diferenças.

Outra forma importante com que a conexão erótica funciona é a ampla e destemida ênfase de minha capacidade de gozar. Do jeito que meu corpo se expande à música e se abre em resposta, auscultando seus ritmos profundos, assim cada nível de onde eu sinto também se abre à experiência eroticamente satisfatória, seja dançando, construindo uma estante de livros, escrevendo um poema, examinando uma ideia.

Essa autoconexão compartilhada é uma medida do prazer que me sei capaz de sentir, um lembrete de minha capacidade de sentir. E esse conhecimento profundo e insubstituível da minha capacidade de prazer vem para demandar de toda minha vida que seja vivida dentro do conhecimento de que tal satisfação é possível, e não precisa ser chamada de casamento, nem deus, nem vida após a morte.

Essa é uma razão pela qual o erótico é tão temido, e tantas vezes relegado unicamente ao quarto, isso quando chega a ser reconhecido. Pois logo que começamos a sentir intensamente todos os aspectos de nossas vidas, começamos a esperar de nós mesmas e do que desejamos da vida que isso esteja de acordo com aquele prazer de que nos sabemos capazes. Nossa sabedoria erótica nos empodera, se torna uma lente pela qual escrutinamos todos os aspectos de nossa existência, nos forçando a examiná-los honestamente em termos de seus significados relativos em nossas vidas. E essa é uma grave responsabilidade, projetada desde dentro de cada uma de nós, de não se conformar com o conveniente, o falseado, o convencionalmente esperado, nem o meramente seguro.

Durante a Segunda Guerra Mundial, comprávamos potes de plástico selados de margarina branca, incolor, com uma minúscula, intensa cápsula de corante amarelo encimada como um topázio bem sob a pele clara do pote. Deixávamos a margarina de fora um tempo para amaciar, e então furávamos a pequena cápsula para jogá-la dentro do pote, soltando sua rica amarelice na macia massa pálida da margarina. Então pegando-a cuidadosamente entre os dedos, balançávamos suavemente pra frente e pra trás, várias vezes, até que a cor tivesse se espalhado por todo o pote de margarina, colorindo-a perfeitamente.

Eu acho o erótico tal cerne dentro de mim mesma. Quando liberado de seu invólucro intenso e constritor, ele flui através e colore minha vida com um tipo de energia que amplia e sensibiliza e fortalece toda minha experiência.

Fomos criadas pra temer o sim dentro de nós, nossas mais profundas vontades. Mas uma vez reconhecido, aqueles que não melhoram nosso futuro perdem seu poder e podem ser mudados. O medo de nossos desejos os mantém suspeita e indiscriminadamente poderosos, pois suprimir qualquer verdade é dar a ela uma força além da resistência. O medo de que não podemos crescer além de quaisquer distorções que possamos achar em nós mesmas nos mantém dóceis e leais e obedientes, externamente definidas, e nos leva a aceitar muitas facetas da opressão que passamos enquanto mulheres.

Quando nós vivemos fora de nós mesmas, e com isso digo em diretrizes externas unicamente ao invés de por nossa sabedoria e necessidades internas, quando vivemos longe daquelas guias eróticas de dentro de nós mesmas, então nossas vidas são limitadas pelas formas externas e alheias, e nós nos conformamos com as necessidades de uma estrutura que não é baseada em necessidade humana, quem dirá na individual. Mas quando começamos a viver desde dentro pra fora, em toque o poder do erótico dentro de nós mesmas, e permitindo esse poder de informar e iluminar nossas ações sobre o mundo a nosso redor, então nós começamos a ser responsáveis por nós mesmas no sentido mais profundo. Pois quando começamos a reconhecer nossos sentimentos mais profundos, nós começamos a desistir, por necessidade, de estar satisfeitas com sofrimento e autonegação, e com o entorpecimento que tantas vezes parece ser a única alternativa em nossa sociedade. Nossas ações contra a opressão se tornam integrais com ser, motivadas e empoderadas desde dentro.

Em toque com o erótico, eu me torno menos disposta a aceitar desempoderamento, ou esses outros estados fornecidos de ser que não são nativos para mim, tais como resignação, desespero, autoaniquilamento, depressão, autonegação.

E sim, há uma hierarquia. Existe diferença entre pintar uma cerca no quintal e escrever um poema, mas só uma de quantidade. E não há, para mim, diferença alguma entre escrever um bom poema e me mover à luz do sol contra o corpo de uma mulher que eu amo.

Isso me traz à última consideração sobre o erótico. Compartilhar o poder dos sentimentos umas das outras é diferente de usar os sentimentos de outra pessoa como usaríamos um lenço de papel. Quando desviamos o olhar de nossa experiência, erótica ou outra, nós usamos ao invés de compartilhar os sentimentos daquelas outras que participam na experiência conosco. E uso sem consentimento da usada é abuso.

Para serem utilizados, nossos sentimentos eróticos devem ser identificados. A necessidade de compartilhar sentir profundo é uma necessidade humana. Mas dentro da tradição europeia-americana, essa necessidade é satisfeita por certos proscritos eróticos de gozar-junto. Tais ocasiões são quase sempre caracterizadas por um simultâneo desviar o olhar, uma pretensão de chamá-las outra coisa, seja uma religião, um calhar, violência de multidão, ou mesmo brincar de médico. E esse mal-chamar da necessidade e do ato dá vazão àquela distorção que resulta em pornografia e obscenidade – o abuso do sentir.

Quando desviamos o olhar da importância do erótico no desenvolvimento e sustentação de nosso poder, ou quando desviamos o olhar de nós mesmas ao satisfazer nossas necessidades eróticas em acordo com outras, nós usamos umas às outras como objetos de satisfação ao invés de compartilharmos nosso gozo no satisfazer, ao invés de fazer conexão com nossas similaridades e nossas diferenças. Nos recusarmos a ser conscientes do que estamos sentindo a qualquer momento, por mais confortável que possa parecer, é negar uma grande parte da experiência, e permitir que nós mesmas sejamos reduzidas ao pornográfico, o abusado, e o absurdo.

O erótico não pode ser sentido indiretamente. Como uma Negra lésbica feminista, tenho um particular sentir, conhecimento e compreensão por aquelas irmãs com quem eu dancei pesado, me diverti, ou até briguei. Essa participação profunda tem sido muitas vezes o precedente a ações conjuntas partilhadas não possíveis antes.

Mas essa carga erótica não é facilmente compartilhada por mulheres que continuam a operar sob uma tradição exclusivamente masculina europeia-americana. Eu sei que ela não estava disponível pra mim quando eu tentava adaptar minha consciência a esse modo de vida e sensação.

Somente agora, eu acho mais e mais mulheres-identificadas-com-mulheres bravas o bastante para arriscar compartilhar a carga elétrica do erótico sem ter que desviar os olhos, e sem distorcer a natureza enormemente poderosa e criativa dessa troca. Reconhecer o poder do erótico em nossas vidas pode nos dar a energia para alcançar mudança genuína dentro de nosso mundo, ao invés de meramente acomodação a uma mudança de personagens no mesmo teatro tedioso.

Pois não só nós tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos aquilo que é fêmeo e autoafirmativo em face a uma sociedade racista, patriarcal e antierótica.


[1] traduzido por tate ann de Uses of the Erotic: The Erotic as Power, in: LORDE, Audre. Sister outsider: essays and speeches. New York: The Crossing Press Feminist Series, 1984. p. 53-59.

pdf aqui: Audre_Lorde_Usos-do-erotico_O-erotico-como-poder

áudio de Audre Lorde lendo essa pérola aqui (em inglês)!

Pois enquanto minha pele for Negra eu serei uma devotada anti-especista

Royce[1]

Agosto 29, 2009

O título desse post é uma referência ao post recente em Womanist Musing. O post detalha os sentimentos dela sobre as formas que animais têm sido usados por uma sociedade branca supremacista para metaforizar pessoas de cor. Dos macacos Pretos aos chihuahuas Latinos e tudo mais entre isso. Eu conheço esses sentimentos bem demais. O post terminou com umas poderosas poucas linhas:

“Eles podem gritar biologia até o fim do tempo mas nós lembramos quando tais comparações eram usadas para justificar escravidão, estupro, e segregação. Pois enquanto minha pele for Negra[2] eu vou ser uma devotada especista. Minha dignidade e humanidade demandam não menos.”[3]

As palavras dela são assustadoras e poderosas para mim. E Ela está certa. Aquelas memórias correm fundo. Pessoas de cor ainda têm seus bebês levados embora, ainda levam tiros e são caçadas, e até recentemente (talvez) eram cobaias[4]. Pessoas de cor são tratadas como animais, são chamadas animais, e são desumanizadas todo o tempo.

Nos EUA (e no mundo) a Negritude posiciona pessoas embaixo em uma hierarquia racial muito real. Solidariedade entre diferentes pessoas de cor é às vezes difícil já que nós tod@s lutamos para nos tirar pra longe do fundo. Alguns/algumas de nós fazemos isso nos distanciando do fundo, da Negritude.  Eu tenho ouvido pessoas de cor que não são Negras distanciando a si mesmas por quão diferentes são das pessoas Negras. Pessoas Negras distanciamos nós mesmos uns/umas dxs outrxs por colorismo e regionalismo/xenofobia. Eu ouvi pessoas Americanas Negras se distanciarem de pessoas Africanas Negras por primitivismo, arengas xenofóbicas. E Negras Africanas se distanciando porque Negras Americanas são retratadas como violentas e animalescas.

Eu não posso perguntar a uma vaca sobre seus sentimentos quanto a seu estupro sistemático e mecânico, separação de sua criança, e eventual abate. Mas assumir por causa das diferenças entre nós que ela não se importa, ou é incapaz de se importar usa a mesma lógica usada pela supremacia branca para pessoas de cor.

Koko, a famosa gorila, podia escrever 6.000 símbolos. Ela podia criar novas palavras combinando símbolos. Ela marcou entre 70 e 95 em testes de QI. Ela me faz pensar em Pedro Rubro. Pedro Rubro é a única personagem de Kafka que realmente, verdadeiramente me tocou. Um relato a uma academia ressoa com minha identidade diaspórica. Ser seqüestrado de casa, embarcado para qualquer outro lugar, e perder a conexão que se tem com sua casa, mas ser capaz de retrucar a quem te levou na própria língua deles. É assim tão extenuante pensar que animais também não poderiam se magoar por serem embarcados em gaiolas através dos oceanos, mas serem incapazes de nos dizer isso numa linguagem que podemos entender?[5]

Pedro Rubro foi um elo para mim. Ele é literalmente um gorila, metaforicamente uma pessoa diaspórica. Ele é o elo perdido entre Koko e animal e eu uma humana. Se eu posso ter empatia por um gorila literário que conta a mesma história que Koko poderia contar, então eu posso também ter empatia com Koko, e por extensão com todos os animais.

Em minha alma eu sei que seria tão errado para mim recuar minha solidariedade àqueles que são vistos como menos que eu, por causa de uma barreira de espécies. Construir o valor de um ser por sua humanidade é abraçar um mundo onde o patriarcado branco é o padrão. Humanidade estão tão conectada a capacidade-corporal, branquitude, masculinidade, cisgeneridade, heterossexualidade porque essas são as pessoas que vão a decidir quem vai contar, e quando eles vão contar como humanos.

Para mim, usar biologia para explicar porque não é tudo bem me matar ou enjaular, mas é tudo bem matar ou enjaular outra pessoa é uma replicação das dinâmicas de poder. É cagar naqueles abaixo de mim numa hierarquia de poder, para que eu possa manter meu posto longe do fundo.

Para mim, recusar compaixão a outros seres, simplesmente porque eu fui comparada com eles, é centrar a branquitude. Eu digo “Foda-se” para aquelas pessoas brancas que pensam que têm autoridade para usar minha história à humanização de animais. Mas quando estou só eu e o pássaro na gaiola eu sei o que tá rolando, eu não preciso comparar. Minha história me permite ter empatia de tal forma que duvido que aqueles no centro algum dia poderiam.

Eu cheguei a uma conclusão diferente de Womanist Musings: a história de meu povo sendo sequestrado, escravizado, enjaulado, feito de cobaia, caçado, sacrificado, assassinado, e exposto deixou um gosto ruim na minha boca, e empatia no meu coração.

Pois enquanto minha pele for Negra eu serei uma devotada anti-especista.


[1] Royce é autora do blog vegans of color, e o texto em inglês está disponível aqui: http://vegansofcolor.wordpress.com/2009/08/29/for-as-long-as-my-skin-is-black-i-will-be-a-devoted-anti-speciesist/

tradução de tatiana nascimento feita em 14/01/2011.

[2] traduzi Black como “negra” quando se referia a etnia/pele de pessoas humanas, e “preta” quando se referiu a macacos para marcar a luta histórica de autodefinição de pessoas negras no Brasil, y evidenciar/rememorar tanto as raízes racistas y especistas do uso frequente de “preto” & “macaco” para ofender pessoas negras quanto o que está em disputa na escolha por um ou outro.

[3] no texto em inglês, a citação não tinha aspas mas deslocamento. como não sei fazer isso no blog, pus aspas.

[4] mantive os links originais.

[5] no texto em inglês, a pergunta ficava explícita pela distribuição sintática dos termos, mas em português optei por pontuar com a interrogação.