SE NÃO SOU EU UMA MULHER

 

Laverne Cox

 

ESSA É UMA PEÇA QUE ESCREVI HÁ UNS DOIS ANOS LOCALIZANDO MINHA IDENTIDADE TRANS EM RELAÇÃO À MINHA MULHERIDADE NEGRA. ALGUÉM NA SALA DE CHAT DO VH1 QUERIA OUVIR MEUS PENSAMENTOS SOBRE SER UMA MULHER DE COR TRANS. AQUI ESTÃO ALGUNS DELES.

 

SE NÃO SOU EU UMA MULHER[2]

“Se não sou eu uma mulher.” Essa é uma frase que tem pipocado muito na minha cabeça ultimamente. É uma frase que todas nós conhecemos, obviamente, do famoso discurso de Sojourner Truth de mesmo título. É uma frase que evoca para mim a desvalorização histórica da mulheridade negra na América [Estados Unidos da América][3]. A Sra. Truth em 1851 na Convenção de Mulheres em Akron, Ohio, diz:

“Aquele homem ali diz que mulheres têm que ser ajudadas para subir nas carruagens, e levantadas sob as valetas, e ter o melhor lugar onde seja. Ninguém nunca me ajuda a subir em carruagens, ou sobre lamaçais, ou me dá lugar melhor nenhum! E eu não sou uma mulher?”

Ela continua:

“Eu dei à luz treze crianças, e vi quase todas serem vendidas para escravização, e quando eu chorei meu pesar de mãe, ninguém além de Jesus me ouviu! E eu não sou uma mulher?”

É uma frase que uma de minhas escritoras favoritas, bell hooks, se apropria para o título de seu primeiro livro, “Ain’t I a woman: Black Women and Feminism” [Se não sou eu uma mulher: Mulheres Negras e Feminismo]. Nesse livro, ela falou sobre como mulheres negras foram barradas da primeira onda do movimento feminista. Ela localizou essa expulsão novamente dentro de uma história de desvalorização da mulheridade negra dentro de um contexto cultural racista branco.

Não sou eu uma mulher? Não sou eu uma mulher? Essa frase tem quase me assombrado ultimamente. Certamente como uma mulher transgênero essa é a questão, não é mesmo[?] Sou eu uma mulher? Mas não sou eu uma mulher? Num mundo binário de gênero, mulheres trans não podem ser mulheres. Mas uma das lições importantes do feminismo é que essa categoria de mulher não é um imperativo biológico. A teórica feminista e queer Judith Butler abre seu famoso livro Genter Trouble [Problemas de Gênero] com a bem conhecida citação de Simone de Beauvoir: “Não se nasce uma mulher mas sim se torna uma”. Butler acrescenta que dentro dessa análise de de Beauvoir, quem se torna uma mulher não é necessariamente fêmea. Ela adiciona, “segue-se que mulher em si é um termo em processo, um devir, um construir que não pode exatamente ser dito como originando ou acabando”.

Se não sou eu uma mulher.

Eu localizo esse momento de Butler não para ser pretenciosa ou acadêmica. Mas eu sinto esse processo de devir em minha vida. Eu sempre senti no meu coração que sou uma garota e agora uma mulher. Por anos meus sentimentos eram mais de identificação que de experiência. Eu me lembro de estar numa aula de estudos das mulheres na faculdade me sentindo tão conectada com as questões que estavam sendo discutidas. Eu era muito andrógena naquele tempo. Muitas das outras mulheres na turma me percebiam como um homem gay muito, muito afeminado. Por mais que eu me identificasse como uma mulher, naquele momento as outras mulheres da turma me só viam como um homem com o potencial de oprimir. Eu me recordo de chamar uma das mulheres da turma de querida e todo mundo ficar me marcando por isso.

Vivendo há 10 anos como mulher no mundo, eu sinto como se a mulheridade que eu sempre senti por dentro finalmente tenha se externalizado. Ainda assim, muitas pessoas vão desaprovar essa mulheridade por causa do meu status de transgênero. Obviamente eu sei que posso ocupar espaços múltiplos. Posso ser trans e uma mulher, mas sou também uma mulher negra. Há uma dor que essa história engendra que é muito real nas vidas de mulheres negras aqui e agora n[os Estados Unidos d]a América. É uma dor que é similar aos sentimentos que compeliram Sojourner Truth a perguntar “E eu não sou uma mulher?” mais de 150 anos atrás. É algo que mulheres negras n[os Estados Unidos d]a América sabemos se olhamos ao redor a imagens e mentalidades que nos desvalorizam. Mas nós sabemos isso mais porque nós sentimos em olhares e desvios de olhar e nos tons das vozes das pessoas, em revistas de moda e outras representações midiáticas.

Não posso deixar de recordar um momento que vi no programa de Tyra Banks. Ela fez um programa sobre como percepções raciais afetam a atração. Teve um momento em que ela pediu a todos os homens no palco que ficassem perto do tipo de mulher com quem eles sexualmente fantasiavam. Havia mulheres de múltiplas raças no palco. Nenhum ficou do lado da mulher negra. Então ela pediu que se aproximassem da mulher com quem se casariam e apresentariam à família. Só outro homem negro escolheu a mulher negra no palco nesse caso. Apesar de ter conhecido muitos homens que têm fantasias sexuais comigo, teve alguma coisa nesse momento que me pareceu real com a qual me identifiquei. Eu fiquei algo chocada por ninguém ter escolhido a mulher negra em um nível, mas em outro eu não fiquei nada chocada. Mesmo que eu tenha sido objetificada sexualmente por homens, eu tenho sido simultaneamente desvalorizada por eles. Nós sabemos que essas duas coisas podem coexistir.

Mas a objetificação racial toma uma dimensão realmente interessante no corpo de uma mulher trans, particularmente no caso de uma mulher trans negra. Na América[4] é conhecimento comum que historicamente na imaginação de supremacia branca tem havido uma fascinação com o pênis do homem negro. O fato de que os pênis de homens negros eram frequentemente cortados e vendidos depois que eles eram linchados é um testemunho disso.

Essa história está viva e inabalável, hoje em novas formas. O pênis do homem negro ganhou proporções míticas na América. Ele continua sendo um objeto de medo e fascinação. Mas o que acontece nesse contexto cultural quando uma mulher negra está em posse daquele pênis mítico? Ele ainda tem as mesmas dimensões míticas uma vez que é “feminizado”? Eu recordo de estar numa festa para mulheres trans e os homens que nos desejam. Tinha um cara considerado atraente por mim a quem vi conversando com um monte de garotas asiáticas a noite toda. Eu sorri pra ele algumas vezes e nada. Mais tarde, uma daquelas garotas que eu conhecia nos apresentou. Eu, brincando, disse: “Oi, você é uma graça, mas obviamente[5] não me acha atraente.” Ele disse: “Não, eu acho você muito atraente, mas você é intimidante.” Eu fiquei fascinada. Ninguém tinha me dito que eu era intimidadora antes. Então eu quis saber o que em mim ele achava intimidante. Ele disse “Bem, você tem um corpo perfeito, é estonteante e provavelmente é maior que eu”.

Eu fiquei chocada e Rupauleada[6] (como as monas diriam) por ele ter ousado ir aí, por ele fazer essas assunções sobre meu corpo. Ele era branco. Eu ainda acho isso impressionante. Eu menciono essa história para explicitar as realidades complexas do corpo negro transexual e sua identidade historicamente, e como essa história informa como somos vistxs e experienciadxs hoje. Será que ele acharia uma mulher negra não-trans tão intimidante?, suas concepções racistas sobre o pênis do homem negro estavam nitidamente deslocadas em relação a mim. Esse racismo estava também nitidamente baseado nas próprias inseguranças dele sobre si mesmo, como a maioria do preconceito, que nasce de insegurança pessoal.

Me achar bonita numa cultura em que padrões de beleza feminina brancos ainda são a norma: eu continuo achando isso desafiador. Me dizem que sou bonita há anos e eu ainda não acreditei realmente em meu coração que eu sou. Eu tenho dúvidas sobre meus traços serem “femininos o bastante” para alcançar os padrões do meu próprio olhar crítico, duro, bem como os padrões das percepções de outrxs. O resultado  de anos andando nas ruas e não passando sendo igual a não ser percebida como uma mulher não-trans, por exemplo, significaram para mim, em minha ment,e que eu não sou “bonita o bastante.” Conforme eu fui evoluindo e crescendo, eu percebi que passar e beleza não têm nada a ver uma com o outro.  Mas nas muitas vezes que tenho contemplado a cirurgia de feminização facial (CFF) [FFS, facial feminization surgery], fico entristecida em confessar, mas parte de meus desejos de parecer mais “bonita”, mais feminina, eram para parecer mais branca. Eu estou começando a chorar enquanto escrevo isso. É duro admitir mesmo para mim mesma esse grau intenso de autoódio centrado em minha raça. E eu felizmente não tenho como pagar uma CFF. Estou num momento, agora, em que me sinto bonita enquanto mulher negra. É algo pelo qual continuo lutando.

Mas o tipo de desvalorização da mulheridade negra que me faria não abraçar minha própria beleza é o legado que fez com que o corpo negro feminino fosse o lugar de tanta exploração. Essa história, misturada à história do explorador que criou o mito do pênis do homem negro, são as histórias marcadas e transgredidas pela realidade do meu corpo. Mesmo com essa transformação complexa, eu ainda afirmo, se não sou eu uma mulher.

No contexto de um discurso feminista materialista, nós sabemos que corpos importam. Mas também sabemos que nossos corpos não são nosso destino. Nós somos mais que nossos corpos. É esse conceito muito espiritual que levou minhas/meus ancestrais escravizadxs a ultrapassar  o horror daquela experiência, sabendo que somos mais que nossos corpos, achando um espaço para transcender esse plano material em que vivemos. Mas como uma postura libertadora é importante para pessoas negras retomarmos nossos corpos, historicamente vendidos, estuprados, linchados, geralmente desvalorizados como não belos e até selvagens. Mas ao retomarmos nossos corpos é importante não comprar a mitologia racializada sobre eles. Meu corpo transexual muitas vezes visado unicamente como um espaço de conquista sexual e objetificação é um lugar potencialmente interessante para a subversão daquela história racista. Muitas das questões que assolam a cultura afro-americana hoje estão enraizadas no que avalio como uma relação acrítica tanto de homens quanto de mulheres negrxs com o patriarcado ou sexismo institucionalizado. Esse sistema é inerentemente heterossexista, homofóbico e, obviamente, transfóbico.

Penso que abraçar a mulher negra transexual como uma mulher da cultura negra é um importante primeiro passo para desmantelar no pensamento negro a proeminência do patriarcado, que tem basicamente oprimido todxs nós. A tentativa de homens negros de viverem um conceito racista de masculinidade bandida está literalmente matando eles. É de fato minha crença que o abraçar as identidades transgêneras como um todo nesse país e finalmente desmantelar o sistema binário de gênero beneficia todxs nós. A dra. Jamie Koufman, a conhecida cirurgiã de laringe, disse algo durante um debate da revista “The Advocate” de que eu recentemente participei, e que eu achei tão profundo. Ela disse: “Todxs nós somos transgêneros. Nenhum/a de nós se encaixa no modelo binário de gênero”. A revolução de gênero que frequentemente imagino e falo sobre é realmente sobre nos libertarmos da opressão de expectativas baseadas nesse modelo de gênero em que nenhum/a de nós realmente se encaixa mesmo.

Não sou eu uma mulher? América negra, meus/minhas irmãos e irmãs. Eu amo e aceito vocês. Vocês me amam e me aceitam como a mulher negra que sou? Minha identidade trans não me torna nem um pouco menos negra. Reconhecer a mim e à minha identidade complexa é uma oportunidade para nós nos reconectarmos àquele sonho de libertação que não exclude, mas que é sobre todas as pessoas oprimidas se juntando para ter uma voz unida, unida em amor e na possibilidade de resgate. Se não sou eu uma mulher.


[1] traduzido por tatiana nascimento em agosto de 2009, de “AIN’T I A WOMAN”, artigo publicado no site de laverne cox: <http://lavernecox.com/gender-studies/aint-i-woman>.

[3] por entender que América é um continente com vários países, a despeito de Cox, muitas outras ativistas/teóricas que leio, e muita gente vivendo naquele país se referirem a América como um país (o delxs), enfatizo com a referência ao nome inteiro do país, Estados Unidos da América. não uso Estados Unidos porque poderia deixar a referência ambígua, uma vez, no continente, também o México tem, por nome oficial, Estados Unidos – Estados Unidos Mexicanos. n. da t.

[4] não marquei aqui América como anteriormente para tentar explicitar que há uma dimensão continental, e afro-diaspórica transatlântica em realidade, dessa estereotipia. n. da t.

[5] no texto em inglês, Cox usou “clearly” – tenho preferido evitar usar termos como “claro” e “esclarecer” indo no fluxo de demandas de movimentos negros no brasil para quem algumas expressões, como essas, carregam lastros racistas, uma vez que insistem na dicotomia entre racionalidade(humana)-clareza-branquitude e irracionalidade(negra)-obscuridade-negritude. n. da t.

[6] referência a Ru Paul. n. da t.

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